Se você já começou a estudar automação industrial, provavelmente já ouviu que sinais analógicos são “complicados”, “difíceis” ou até um “bicho de sete cabeças”. Entretanto, a verdade é que entradas analógicas do CLP podem ser bem mais simples do que parecem — desde que você entenda o conceito e siga um passo a passo claro.
Além disso, muitos eletricistas e técnicos travam justamente na parte da programação: sabem ligar sensores, entendem a teoria, mas não sabem como transformar o sinal analógico em lógica Ladder dentro do CLP.
Por isso, neste post, você vai aprender de forma prática como configurar e programar entradas analógicas do CLP no SoMachine Basic (Schneider), usando um exemplo simples e objetivo com controle de temperatura.
O que são entradas analógicas do CLP?
Antes de tudo, você precisa entender que entradas analógicas do CLP servem para receber sinais variáveis, ou seja, sinais que mudam gradualmente ao longo do tempo — e não apenas dois estados fixos como acontece nas entradas digitais (0 ou 1).
Em outras palavras: a entrada analógica “mede” um valor contínuo, enquanto a digital apenas “detecta” se algo está ligado ou desligado.
Ou seja, enquanto uma entrada digital responde algo como:
- ligado / desligado
- aberto / fechado
- presença / ausência
Aqui o CLP entende apenas duas situações: tem sinal ou não tem sinal, é verdadeiro ou falso, é 0 ou 1.
Já uma entrada analógica permite ler valores como:
- temperatura
- pressão
- nível de tanque
- vazão
- velocidade proporcional
Nesse caso, o CLP não recebe somente “sim” ou “não”. Ele recebe um valor numérico proporcional ao que está acontecendo no processo.
Por exemplo:
- um sensor pode informar que a temperatura está em 20°C, 21°C, 22°C…
- ou que um tanque está com 35%, 48%, 62%…
- ou que a pressão está em 1,2 bar, 1,5 bar, 1,8 bar…
Além disso, essas leituras normalmente chegam no CLP por sinais padronizados, como:
- 0 a 10 V
- 0 a 20 mA
- 4 a 20 mA (um dos mais usados na indústria)
E aí o CLP converte esse sinal em um número interno, que você utiliza na lógica Ladder para comparar e tomar decisões.
Assim, com entradas analógicas do CLP, você consegue monitorar e controlar processos com muito mais precisão, criando automações mais inteligentes, seguras e profissionais — principalmente em aplicações como controle de temperatura, nível, pressão e velocidade.
Leia também: Entradas Analógicas do CLP, de forma fácil.
Quais são os principais sinais analógicos usados?
Na prática, as entradas analógicas do CLP são projetadas para receber sinais que variam continuamente dentro de faixas padronizadas, muito utilizadas na indústria. As mais comuns são:
- 0 a 10 V – usada para sensores que operam com variação de tensão;
- 0 a 20 mA – comum em sistemas que não exigem detecção de falha no sinal;
- 4 a 20 mA – a mais utilizada, justamente por oferecer maior segurança.
Essa última, de 4 a 20 mA, é considerada padrão em muitos processos industriais porque permite a detecção de falhas no sensor. Por exemplo, se o CLP recebe um sinal abaixo de 4 mA (como 0 mA), ele entende que há um problema na conexão ou no sensor, o que não é possível detectar se você estiver usando a faixa de 0 a 20 mA.
No caso apresentado no exemplo do vídeo/transcrição, o sistema está configurado para trabalhar com entradas analógicas do CLP na faixa de 4 a 20 mA, exatamente por conta dessa confiabilidade.
Como o CLP interpreta o sinal: a escala interna
Porém, vale destacar um ponto importante: o CLP não interpreta os sinais em miliamperes diretamente. O sinal analógico é convertido internamente em um valor numérico dentro do CLP — isso é feito para facilitar o uso da informação em lógicas de programação (como comparações e cálculos).
Por exemplo, a escala de leitura configurada no software foi:
4 mA = 4000
20 mA = 20000
Ou seja, se o sensor enviar um sinal de 4 mA, o CLP interpretará esse valor como “4000”. Se o sinal for 20 mA, ele será lido como “20000”. Qualquer valor entre esses dois pontos (como 9000, 15000 etc.) representa uma variação proporcional entre os limites da faixa, permitindo que o CLP saiba exatamente em que ponto da medição o sistema se encontra.
Dessa forma, o profissional consegue programar o CLP com precisão, criando condições lógicas baseadas em valores numéricos e acionando saídas conforme a variação da grandeza física (como temperatura, pressão ou nível).
Passo a passo: configurando entradas analógicas do CLP no SoMachine Basic
Se você quer entender na prática como funciona a programação com entradas analógicas do CLP, siga esse passo a passo completo e simplificado. Vamos trabalhar com o software SoMachine Basic, da Schneider Electric, e usar como exemplo um controle simples de temperatura com duas saídas: uma para aquecimento e outra para resfriamento.
1) Criando o projeto e escolhendo o CLP
Para começar, abra o SoMachine Basic e siga as etapas:
- Clique em “Create a new project” (Criar novo projeto).
- Selecione o modelo de CLP que você vai usar. No nosso exemplo, utilizamos o TM200C24T, da linha M200.
- Arraste esse modelo para dentro do seu novo projeto.
Isso define a CPU do seu projeto, ou seja, o “cérebro” que vai executar a lógica de controle.
2) Adicionando o módulo analógico
Depois de configurar a CPU, o próximo passo é adicionar o módulo de entrada analógica, que será responsável por receber os sinais do sensor.
- Localize o módulo compatível no menu. No exemplo, usamos o TM2MCR2A12, que possui duas entradas analógicas.
- Clique, segure e arraste o módulo analógico para acoplar diretamente na CPU.
Com isso, você já habilita as entradas analógicas do CLP dentro do projeto, sem precisar configurar manualmente os endereços.
3) Configurando o tipo de sinal (4 a 20 mA)
Agora que o módulo está no projeto, é essencial configurar o tipo de sinal que ele vai receber:
- Clique duas vezes sobre cada entrada analógica e defina o tipo de sinal como 4 a 20 mA.
📌 Essa é a faixa mais usada em sensores industriais, pois oferece boa precisão e resistência a ruídos.
O software vai traduzir isso internamente como:
- 4 mA = 4000
- 20 mA = 20000
Isso significa que, ao receber um sinal analógico, o CLP irá interpretar os valores dentro dessa faixa como números inteiros — e é com esses números que vamos trabalhar na programação Ladder.
Programando a lógica Ladder com entradas analógicas do CLP
Agora vamos à parte mais prática: a programação Ladder. Embora pareça difícil à primeira vista, esse processo fica simples quando seguimos uma sequência lógica.
1) Criando uma memória (MW0) para armazenar o valor analógico
Antes de usar o valor recebido pela entrada analógica em comparações, precisamos “guardá-lo” em uma memória interna do CLP:
-
Crie uma memória chamada MW0.
-
Relacione essa memória com a entrada analógica 1 (AI1), com uma atribuição como:
-
MW0 = AI1
-
Essa etapa é fundamental! A memória serve como intermediária entre o sensor e a lógica do programa.
2) Criando comparação para ativar resfriamento
Com o valor já armazenado em MW0, podemos programar a lógica de controle.
Vamos criar a primeira condição:
- Se o valor da memória MW0 for maior que 10000, então o CLP liga a saída 1, responsável pelo resfriamento.
💡 Por exemplo: se o sensor indicar que a temperatura está acima do limite definido (ex: 10°C), o CLP aciona a ventilação ou o exaustor para baixar a temperatura.
Essa comparação é feita com um bloco de comparação (maior que).
3) Criando comparação para ativar aquecimento
A segunda condição é complementar à anterior:
- Se MW0 for menor que 10000, então o CLP liga a saída 2, que ativa o aquecimento (por exemplo, um banco de resistências).
Dessa forma, enquanto a temperatura estiver abaixo do ponto de controle, o sistema continua aquecendo.
Resumo da lógica:
- Temperatura baixa (menor que 10.000) → ativa saída de aquecimento
- Temperatura alta (maior que 10.000) → ativa saída de resfriamento
Ou seja: seu CLP já está funcionando com base em entradas analógicas, mesmo com uma lógica simples de controle on/off.
Como testar a programação das entradas analógicas do CLP (simulação)
Após concluir toda a lógica Ladder no software SoMachine Basic, não é necessário transferir imediatamente o projeto para o CLP físico. Antes disso, é altamente recomendado que você faça a simulação interna do programa, o que permite testar o funcionamento da lógica com segurança e praticidade.
Veja o passo a passo detalhado:
-
Ative o modo de simulação:
No SoMachine, clique em “Simulation” (ou “Simulator”) para iniciar o ambiente de teste virtual. Isso permite que o software simule o comportamento do CLP, como se estivesse rodando de verdade. -
Clique em “Start Control” (ícone de play):
Após ativar a simulação, é essencial clicar no botão “Start Control” (ícone de ▶️ play). Essa ação inicia efetivamente o ciclo de escaneamento do CLP virtual.
⚠️ Atenção: Muitos usuários esquecem dessa etapa e acham que a lógica está com erro, quando na verdade o problema é que o CLP ainda não “rodou” a programação. -
Insira valores nas entradas analógicas simuladas:
Vá até os canais analógicos e digite os valores desejados (por exemplo, 4000, 9000 ou 15000) para simular diferentes sinais de entrada. Assim, você poderá observar se a lógica está acionando corretamente as saídas programadas. -
Observe o comportamento das saídas:
Com base nos valores inseridos, verifique quais saídas estão sendo ativadas. Isso ajuda a validar se a lógica Ladder está funcionando como planejado.
Essa etapa de simulação é fundamental para corrigir erros, testar limites e entender o comportamento do CLP antes mesmo de conectá-lo fisicamente a sensores, atuadores ou outros equipamentos.
Simulando valores na entrada analógica
Durante a simulação no SoMachine, além disso, você tem a possibilidade de alterar manualmente os valores que entram pelas entradas analógicas do CLP. Dessa forma, é possível testar, com total segurança, como sua lógica de programação vai reagir a diferentes sinais. Além disso, tudo isso pode ser feito sem, inicialmente, precisar conectar fisicamente sensores ou equipamentos.
Por exemplo, ao modificar o valor da entrada analógica AI1 na simulação, você pode observar o comportamento das saídas programadas:
- Quando você define o valor em 4000, o CLP entende que está recebendo 4 mA, ou seja, uma temperatura baixa. Nesse cenário, a saída de aquecimento é ativada, pois o sistema entende que precisa elevar a temperatura.
- Se você ajustar para 9000, que ainda está abaixo do limite configurado (10.000), o CLP continua entendendo que a temperatura ainda não atingiu o ponto de corte. Assim, a saída de aquecimento continua ligada.
- Por fim, ao mudar para 15000, o CLP interpreta que a temperatura subiu além do limite. Consequentemente, a lógica desliga a saída de aquecimento e, em seguida, aciona a saída de resfriamento, a fim de reduzir a temperatura do sistema.
Esse processo de simulação permite validar a lógica com total segurança e clareza. Dessa forma, você consegue enxergar com mais facilidade como os sinais analógicos afetam diretamente o funcionamento do controle, e passa a trabalhar com entradas analógicas do CLP com muito mais confiança.
Por que muita gente trava nas entradas analógicas do CLP?
Na maioria dos casos, o verdadeiro problema não está no uso das entradas analógicas do CLP em si, mas sim em alguns erros comuns cometidos durante a configuração e a programação. Muitos profissionais enfrentam dificuldades porque:
- Não compreendem como funciona a escala de valores: ao trabalhar com sinais de 4 a 20 mA, o CLP interpreta esses valores de forma numérica — por exemplo, 4 mA é representado como 4000, e 20 mA como 20000. Quem não entende essa conversão, acaba se perdendo na hora de comparar os dados recebidos.
- Configuram o tipo de sinal de forma incorreta: portanto, ao escolher o tipo de entrada no software, é essencial selecionar a faixa correta (como 4 a 20 mA). Do contrário, o CLP vai interpretar os dados de maneira errada, o que pode gerar respostas fora do esperado.
- Tentam criar lógicas muito complexas logo de início: antes de partir para estruturas mais avançadas de controle, é fundamental garantir que o básico esteja funcionando. Começar com uma lógica simples ajuda a entender o comportamento dos sinais e das saídas.
- Ignoram o uso de memória intermediária (MW): portanto, em vez de usar diretamente o valor da entrada analógica nos blocos de comparação, o mais recomendado é armazená-lo em uma memória intermediária. Dessa forma, você facilita o controle, a leitura e o reuso do dado ao longo da programação.
Quando esses pontos são compreendidos e aplicados corretamente, trabalhar com entradas analógicas do CLP se torna muito mais simples, intuitivo e eficaz.
Conclusão: entradas analógicas do CLP podem ser simples (e práticas)
Embora tenham fama de “complicadas”, as entradas analógicas do CLP se tornam muito mais simples assim que você entende os fundamentos. Afinal, a maioria das dificuldades surge de pequenos erros de configuração ou, ainda, da falta de clareza sobre como esses sinais funcionam. Por isso, em vez de evitar esse tipo de aplicação, o ideal é dominar o básico com segurança e seguir evoluindo gradualmente.
Se você aplicar os conceitos certos desde o início, trabalhar com entradas analógicas pode ser mais fácil do que parece.
Recapitulando os principais pontos para não errar:
- Entenda bem a escala de leitura do CLP (ex: 4 mA = 4000; 20 mA = 20000).
- Configure corretamente o tipo de sinal analógico no software.
- Comece com uma lógica simples, antes de partir para programações complexas.
- Utilize uma memória intermediária (MW) para armazenar e tratar os valores recebidos.
Dominar esses pontos é o que transforma um desafio técnico em uma habilidade valiosa para seu crescimento como profissional da automação.
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