Se existe um assunto que reprova profissionais em testes admissionais e, pior ainda, queima motores na prática, é o entendimento correto sobre relé térmico e disjuntor motor.
Muitos eletricistas acreditam que os dois dispositivos fazem a mesma coisa. No entanto, apesar de parecerem semelhantes, eles possuem funções diferentes — principalmente em partidas estrela-triângulo.
E é justamente nesse detalhe que mora o perigo.
Neste artigo você vai entender:
- Como funciona o relé térmico
- Como funciona o disjuntor motor
- A principal diferença entre relé térmico e disjuntor motor
- Como ajustar corretamente na estrela-triângulo
- O erro que pode queimar seu motor
O Que é Relé Térmico?
O relé térmico é um dispositivo de proteção contra sobrecarga prolongada.
Ele atua quando, ao longo do tempo, a corrente ultrapassa o valor ajustado e, consequentemente, gera aquecimento interno — normalmente por meio de lâminas bimetálicas.
Em resumo:
✔ Protege contra sobrecarga
❌ Não protege contra curto-circuito
Por isso, ao utilizar relé térmico, é obrigatório associá-lo a:
- Fusíveis
- Ou disjuntor de proteção
Aqui já começamos a entender uma das principais diferenças entre relé térmico e disjuntor motor.
O Que é Disjuntor Motor?
Por outro lado, o disjuntor motor é um dispositivo mais completo e robusto quando falamos em proteção de motores elétricos.
Isso acontece porque ele já integra dois tipos de proteção dentro do mesmo equipamento:
✔ Proteção térmica (sobrecarga) – Atua quando o motor trabalha acima da corrente nominal por um determinado tempo. Esse tipo de falha normalmente acontece por excesso de carga mecânica, travamento parcial do eixo ou esforço excessivo no processo.
✔ Proteção magnética (curto-circuito) – Atua de forma praticamente instantânea quando ocorre um curto-circuito, ou seja, uma corrente muito elevada em um intervalo extremamente curto de tempo.
Em outras palavras, o disjuntor motor protege tanto contra problemas progressivos (sobrecarga) quanto contra falhas bruscas e severas (curto-circuito).
Consequentemente, ao utilizar um disjuntor motor, você não precisa instalar fusíveis adicionais para proteger contra curto-circuito, pois essa função já está incorporada no próprio dispositivo.
Além disso, ele mede a corrente total que alimenta o motor (quando instalado antes da divisão da corrente), o que torna seu ajuste mais direto e simples — normalmente feito com base na corrente nominal indicada na placa do motor.
Portanto, essa integração de proteções é justamente uma das principais diferenças na comparação entre relé térmico e disjuntor motor, especialmente quando analisamos segurança, praticidade e nível de proteção oferecido ao sistema.
Comparação Técnica Entre Relé Térmico e Disjuntor Motor
| Característica | Relé Térmico | Disjuntor Motor |
|---|---|---|
| Proteção contra sobrecarga | Sim | Sim |
| Proteção contra curto | Não | Sim |
| Necessita fusível adicional | Sim | Não |
| Ajuste de corrente | Sim | Sim |
| Custo inicial | Menor | Maior |
| Nível de proteção | Parcial | Completo |
Portanto, em termos de robustez, o disjuntor motor entrega proteção mais ampla.
A Pegadinha da Partida Estrela-Triângulo
Agora chegamos ao ponto realmente crítico.
É justamente na partida estrela-triângulo que surge a maior confusão sobre a diferença entre relé térmico e disjuntor motor. E não é por acaso.
Isso acontece porque, nesse tipo de partida, a corrente elétrica não se comporta da mesma forma que em uma ligação direta. Existe, portanto, uma divisão de corrente dentro do circuito e, justamente por isso, esse detalhe muda completamente a forma de ajuste da proteção.
Em outras palavras: dependendo de onde o dispositivo está instalado, ele pode estar medindo corrente de linha ou corrente de fase — e isso altera o valor correto de regulagem.
Se você não entender esse comportamento elétrico, corre o risco de ajustar errado e comprometer a proteção do motor.
Portanto, antes de falar em valores e cálculos, precisamos entender exatamente como a corrente circula na ligação estrela-triângulo.
Vamos por partes.
Relé Térmico e Disjuntor Motor: Corrente de Linha e Corrente de Fase
Na ligação triângulo, a corrente elétrica não se comporta da mesma forma que muitos imaginam — e é justamente aqui que surge o erro mais comum.
Primeiro, precisamos entender duas correntes diferentes:
- Primeiramente, a corrente de linha é aquela que sai da rede elétrica e alimenta o motor.
- Por outro lado, a corrente de fase é a corrente que realmente circula dentro de cada bobina do motor.
Na configuração em triângulo, acontece o seguinte:
Corrente de linha = Corrente nominal do motor
Corrente de fase = Corrente nominal ÷ √3
Isso significa que a corrente que passa dentro de cada bobina não é igual à corrente total que vem da rede.
Ela é menor.
Na prática, a corrente de fase corresponde a aproximadamente 58% da corrente nominal.
Por exemplo:
Se o motor tem corrente nominal de 100 A,
a corrente que circula em cada bobina será aproximadamente 58 A.
Portanto, embora o motor seja de 100 A, o dispositivo que estiver medindo a corrente de fase não estará “vendo” 100 A — estará vendo apenas 58 A.
E é exatamente esse detalhe que confunde muitos profissionais e leva ao ajuste incorreto da proteção.
Quando Uso Disjuntor Motor
Se o disjuntor motor estiver instalado antes do ponto onde a corrente se divide (ou seja, antes do nó onde ela se ramifica para as bobinas do motor na partida estrela-triângulo), ele estará medindo a corrente total que sai da rede em direção ao motor.
Em outras palavras, toda a corrente de linha obrigatoriamente passa por ele antes de qualquer divisão.
Isso significa que o disjuntor motor “enxerga” exatamente a corrente nominal indicada na placa do motor.
Portanto, nesse caso, o ajuste é simples e direto:
- 👉 Ele mede 100% da corrente de linha.
- 👉 O ajuste deve ser feito exatamente com a corrente nominal do motor.
Exemplo prático:
Se o motor possui corrente nominal de 100 A, isso significa que, em funcionamento normal, ele consome 100 A da rede.
Como o disjuntor motor está antes da divisão, ele também recebe esses mesmos 100 A.
Logo:
- Motor = 100 A
- Ajuste do disjuntor motor = 100 A
Sem necessidade de dividir por √3, sem cálculos adicionais e sem margem para dúvida.
Nesse cenário, o ajuste é direto porque o dispositivo está medindo a corrente total do sistema, e não apenas uma parte dela.
Quando Usar Relé Térmico na Estrela-Triângulo no Sistema Relé Térmico e Disjuntor Motor
Agora atenção, porque aqui está o erro mais comum na partida estrela-triângulo.
Quando o relé térmico fica instalado após o ponto onde a corrente se divide, ele não mede a corrente total do motor.
Ou seja:
- 👉 Ele mede corrente de fase
- 👉 Não mede corrente de linha
E na ligação em triângulo acontece o seguinte:
A corrente de fase é igual à corrente nominal ÷ √3.
Sabemos que √3 ≈ 1,73.
Vamos ao exemplo:
Motor com corrente nominal de 100 A.
100 ÷ 1,73 ≈ 58 A.
Portanto:
- ✔ Ajuste correto do relé térmico ≈ 58 A
- ❌ Ajuste errado = 100 A
Se você ajustar para 100 A, o relé ficará superdimensionado. Consequentemente, ele demorará muito para atuar e, assim, permitirá que o motor trabalhe em sobrecarga por tempo excessivo. Dessa forma, consequentemente, o aquecimento aumentará de maneira progressiva e, com o passar do tempo, comprometerá significativamente a vida útil do equipamento.
E é exatamente aqui que a diferença entre relé térmico e disjuntor motor se torna crítica.
O disjuntor mede a corrente total.
Já o relé térmico, nesse ponto do circuito, mede apenas a corrente de fase.
Se você não considerar isso, o motor pode pagar o preço.
O Que Acontece Se Ajustar Errado?
Quando você ajusta o relé térmico como se ele fosse um disjuntor motor, o valor configurado fica acima do que realmente deveria estar.
Na prática, isso significa que o relé não vai atuar no momento certo.
Como consequência:
- A proteção fica superdimensionada
- O motor começa a trabalhar acima do limite seguro
- A corrente excessiva gera aquecimento contínuo
- A isolação dos enrolamentos começa a se deteriorar
- A vida útil do motor diminui consideravelmente
E o pior: o relé pode demorar tanto para atuar que, quando ele finalmente desarmar, o dano já estará feito.
Em situações mais graves:
🔥 O motor simplesmente queima.
Além disso, esse erro é muito comum em testes admissionais na indústria. Inclusive, muitas empresas utilizam exatamente essa pegadinha para avaliar se o profissional realmente compreende a diferença entre relé térmico e disjuntor motor.
Portanto, não dominar esse detalhe técnico pode gerar dois problemas sérios: prejuízo com motor queimado ou reprovação em uma vaga de emprego.
Relé Térmico e Disjuntor Motor: Quando Usar Cada Um?
Use Relé Térmico Quando:
- Já existe proteção contra curto
- Deseja modular a proteção separadamente
- Trabalha com painéis mais tradicionais
Use Disjuntor Motor Quando:
- Quer proteção térmica e magnética integrada
- Busca solução mais compacta
- Deseja instalação mais simples
Análise Profissional
Em primeiro lugar, um profissional experiente não escolhe entre relé térmico e disjuntor motor apenas pelo preço. Pelo contrário, ele analisa o contexto técnico antes de tomar qualquer decisão.
Ele analisa:
- Tipo de partida
- Posição do dispositivo no circuito
- Corrente nominal
- Tipo de proteção exigida
- Criticidade do motor no processo
Além disso, utilizar ferramentas como o eCAD Labs ajuda a visualizar o ponto exato onde o dispositivo está instalado e qual corrente ele realmente está medindo.
Isso evita erros de ajuste e aumenta a confiabilidade do projeto.
Conclusão Técnica
Em resumo, entender a diferença entre relé térmico e disjuntor motor é essencial para proteger corretamente um motor elétrico — principalmente em partidas estrela-triângulo.
O relé térmico atua apenas contra sobrecarga e, portanto, nesse tipo de partida, deve ser ajustado considerando a corrente de fase (corrente nominal ÷ √3). Caso contrário, se o ajuste for feito com base na corrente de linha, ele ficará superdimensionado. Consequentemente, poderá permitir que o motor trabalhe acima do limite seguro e, assim, deixar de atuar no momento adequado, comprometendo a proteção do equipamento.
Por outro lado, o disjuntor motor oferece proteção térmica e magnética. Como, na maioria dos casos, ele fica instalado antes da divisão da corrente, portanto o ajuste deve ser realizado com base na corrente nominal do motor.
Portanto, antes de definir o ajuste, faça sempre esta análise:
A corrente que o dispositivo está medindo é de linha ou de fase?
Essa verificação simples garante proteção correta, aumenta a vida útil do motor e evita prejuízos desnecessários.
Agora me diga: você já aplicava corretamente essa diferença entre relé térmico e disjuntor motor ou já viu motor queimar por causa desse detalhe? 🚀
